As pessoas quando estão longe, quando estão sendo vistas, quando estão caladas, parecem despertar um interesse maior. Naqueles momentos em que podemos vê-las em nossa maior intimidade, como por entre as grades de uma janela do alto de um prédio. Ao observarmos tais indivíduos sentados nas calçadas, quer dizer, realizando qualquer tarefa cotidiana, todos parecem mais dignos de participar de nossos roteiros.
O velho arrancando o mato de sua porta seria uma bela personagem, assim como aqueles outros ao redor do carro a limpá-lo em um domingo à tarde nebuloso. Assim, assemelham-se nossas vidas. A roteiros. Buscamos, constantemente, personagens e trilhas sonoras. Parecemos viver uma sucessão de temporadas a cada ano ou a cada mudança em nosso caminhar. Personagens saindo de cena, talvez por motivos contratuais, ou brigas de bastidores. Estas são bem mais frequentes.
O silêncio desses indivíduos, eles enquanto bonecos ajudando na marcação do palco, de fato me atraem. O silêncio maior, o do mar profundo. Lá é que se encontram as maiores personas. Os peixes, talvez, vivem uma existência de ensaios constantes e, quem sabe, ininterruptos. Nas profundezas, é onde se dá a maior das observações, ou ao menos, a mais contínua.
Fones de ouvido podem funcionar, adequadamente, como o calar oceânico às avessas. Mas podem funcionar. Quando todos se calam para nós, e a observação ganha um ritmo obsessivo, alcançamos a completude entre personagens e trilhas. Escolhemos arbitrariamente estas trilhas, e quem sabe os personagens também. As cenas (a entrada e saída dos restaurantes), (as construções no canteiro ao lado quando passamos), (o abrir e fechar da porta do condomínio), (o movimento nos caixas de supermercados e o repouso nas filas dos bancos)…
Enfim (e no fim), acabamos como personagens dos nossos próprios personagens. Participamos dos roteiros alheios. Havendo dessa maneira uma confluência de estórias. Uma realidade em que participamos e fazemos participar. Personagens de personagens.
0 comentários:
Postar um comentário